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O legado dos Jogos Mundiais são mais cérebros científicos Imprimir E-mail
Tecnologia - Artigos
por Jana de Paula   
25-Mai-2012
Aprove ImagemA pesada carga dos impostos de telecom, tema que tem sido alvo de nova enxurrada de artigos e comentários na nuvem, não foi o único tópico de destaque durante a 12ª Rio Wireless, ocorrida esta semana no Rio de Janeiro. Muito se tratou também do conceito de legado. Mas desta vez, o foco incidiu, não sobre o tipo de legado que precisa ser substituído, mas no que pode ser transmitido para o país, assim que terminarem os Jogos Mundiais. Que "as coisas vão funcionar" durante a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, ninguém duvida. A questão é saber quão intenso é o interesse das partes envolvidas em, de fato, criar uma vantagem tecnológica durável e apta a atravessar com galhardia a terceira década no Terceiro Milênio. E isto se traduz num único ponto: o Brasil precisa de homens e mulheres com mente científica, muito mais do que de ‘engenheiros blogueiros'.

Pelo que se depreendeu dos intensos (e socráticos) debates que incendiaram os painéis e mesas redondas do evento, a lacuna mais dolorida neste processo de adaptação do país ao ‘mundo 2.0' é a de recursos humanos. Todos os representantes do ecossistema (inclusive o governo federal) reconheceram que é chocante a carência de engenheiros, de pessoal com capacidade técnica e científica. Todos se ressentiram da disparidade de se querer evoluir tecnologicamente e da realidade brasileira de simplesmente se recusar a ampliar a visão tecnológica da nação. Historicamente, o país não se dedicou a criar massa crítica científica (fora as exceções, é claro) e hoje as próprias indústrias precisam criar parcerias com centros de pesquisa para formarem pessoal qualificado, como reconheceu Wilson Conti, diretor da Radwin para o Mercosul:

"De fato é muito difícil encontrar pessoal técnico no Brasil. A solução que encontramos na Radwin, cuja origem é israelense, de forte foco em recursos humanos de alta capacidade, foi realizar parcerias com institutos técnicos, para oferecer cursos e especializar o pessoal que nos chega muito cru".

É óbvio que não se vai transformar a ‘ojeriza' do brasileiro pela tecnologia nos dois anos que faltam para o início dos Jogos Mundiais. E nem a FIFA está interessada nisso. Mas, durante a Rio Wireless todos concordaram que o lançamento de medidas educacionais efetivas de médio prazo para fazer com que mais jovens passem a incorporar a tecnologia em suas mentes (hoje apenas 4% do contingente se volta para as áreas científico-tecnológicas) representa o legado mais valioso que se pode deixar para o país. Assim muitos dos presentes na platéia do evento (muitos dos quais engenheiros de formação e profissão) diziam para quem quisesse ouvir que será muito bom quando o título de Honoris Causa (que permite que se coloque o "Doutor" antes do nome) for auferido pelas universidades brasileiras a uma grande leva de engenheiros e engenheiras brilhantes que, ao invés de se deliciarem com os novos dispositivos móveis importados, sejam eles mesmos a produzirem as inovações.

E esta mesma platéia se perguntava por que o tributo tão pesado que a indústria de telecom paga aos governos federal e estadual não é investido em sua totalidade nas universidades e institutos de pesquisa federais e estaduais, para se suprir rapidamente esta imensa lacuna de conhecimento científico da qual padece a nação? Se o que de fato se quer é que a imensa quantidade de investimentos propiciados pela iminência dos Jogos Mundiais e os perenes tributos que César leva de telecom (que os paga religiosamente) representem um legado de ouro, prata e bronze para a nação, o caminho é este.

Os novos negócios

Assim a nação estará preparada para os desafios futuros em termos de negócios, que são consideráveis. Várias análises mundiais já apresentam estatísticas que comprovam que o valor do OTT (over the top) e dos dispositivos móveis já supera o valor de mercado da infraestrutura de comunicações, como lembrou em sua palestra, José Augusto de Oliveira Neto, CTO para a América Latina da Huawei. Hoje em dia, grandes operadoras e pequenos provedores de infraestrutura queimam as pestanas na hora de fechar as contas da receita de venda dos serviços mais o custo de manutenção da rede. Enfim, a transformação da computação na ‘quinta utility' já é mais do que simples tendência, com a chegada da nova geração de redes, do vídeo 2.0, que exige altíssima resolução, a 3D e a consequente demanda ininterrupta por maior capacidade de dados.

Isto significa que no mundo dos negócios da infraestrutura, as redes devem ter mais do que pacotes de voz e dados, ultrapassando paliçadas em direção à venda de conteúdo e uso intensivo da propaganda. E não se pode nem mesmo pensar que os atuais 7 bilhões de habitantes do planeta sejam o volume limite de usuários. As aplicações de máquina a máquina (M2M) multiplicam para 40 bilhões, por baixo, o número de máquinas conectadas. Exemplos simples disso são o mercado da casa conectada, que mal começa a se disseminar, e as lojas de aplicações que pipocam por todo o canto.

Como os provedores de infraestrutura de Telecom serão capazes de enfrentar toda esta complexidade? Afinal estamos falando de um mundo todo IP mais as várias aplicações em multimídia. Oliveira Neto acredita que a solução seja levar todo o conteúdo para a nuvem. "A computação em nuvem veio para ficar, já que engloba todas as soluções prestadas como serviço (Google, Amazon etc.) e todo o hardware e o software dos data centers, as plataformas de serviço e as estruturas sobre serviço. Esta revolução no mundo de TI requer solução de data center na nuvem, serviços executados nesta estrutura e gerência das aplicações aí executadas".

Neste conceito de ‘utilitiy computing' é na nuvem que se disponibiliza a aplicação e se paga pelo uso e serviço. E o provimento destes serviços se baseia num único princípio - excelência. Esta é a maneira para que todos os serviços na nuvem possam existir de forma simples e eficiente. A evolução deste ecossistema exige 1) que toda a inovação tenha o usuário com alvo; 2) que os serviços estejam disponíveis para software, outros serviços e dispositivos, de modo a garantir a experiência e tornar a tecnologia conveniente, ou seja, um ‘shopping mall digital' que permita ao ecossistema funcionar de forma harmônica. Neste "mundo 2.0" será crucial a capacidade da rede na nuvem substituir recursos estáticos, afinal está se tratando de um ambiente (próxima década) onde a conectividade sem fio será de 10 Gigabytes, de armazenamento holográfico, teleimersão e do fim do broadcast que será totalmente substituído pelo streaming.

Para o país não ser um mero coadjuvante neste ‘mundo 2.0' Oliveira Neto apontou como fundamental a capacidade de conhecimento e produção científica para fomentar a indústria. "Só o tripé indústria, academia e governo é capaz de fazer frente a todos estes desafios".

PS. Primeiro, um esquecimento: Houve um felizardo durante a 12ª Rio Wireless: Jailton Ribeiro Sales foi o vencedor do concurso realizado no evento para uma bolsa de pós-graduação no curso "Engenharia de Redes e Sistemas de Telecomunicações", na INATEL. Em segundo lugar, quero acrescentar um comentário do engenheiro de telecomunicações e colaborador do e-Thesis, José Smolka. Segundo ele, a demanda é por mão-de-obra técnológica jovem. Embora bastante carentes de cérebros capacitados, as áreas de recrutamento e recursos humanos das empresas rejeitam profissionais experimentados e em plena maturidade... É, de fato, frustrante.

 

 
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